Foco na prevenção à Covid-19 salvaria milhares de vidas em SP

Somos movimentos sociais, organizações não governamentais, grupos de pesquisa de várias universidades e cidadãos preocupados com o combate ineficaz à pandemia de Covid-19 no Brasil. Por isso, lançamos em 8 de abril de 2021 a Coalizão pela Vida para sensibilizar a sociedade e o poder público sobre a necessidade urgente de priorizarmos a prevenção no enfrentamento da doença.

Observamos, contudo, que o estado e a cidade de São Paulo carecem de uma estratégia focada prioritariamente na prevenção, o melhor caminho para diminuir substancialmente a disseminação do Sars-Cov-2 de maneira duradoura. É o que indicam  experiências bem-sucedidas em algumas cidades e estados brasileiros e no mundo, em nações ricas e pobres.

A prevenção é uma estratégia muito mais barata e eficaz para evitar mortes da Covid-19. Custa muito menos do que os 70 mil reais gastos em média com cada internado por Covid-19, pode salvar milhares de vidas, libera leitos para tratamento e cirurgia de pacientes com outras doenças e reduz substancialmente o enorme contingente de pessoas com sequelas provocadas por esta terrível enfermidade. A falta de medidas preventivas mais efetivas levou a cidade de São Paulo a acumular cerca de 2.200 óbitos por milhão de habitantes, número superior ao do Brasil e de países como Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido, Argentina e México.

Ainda é possível evitar milhares de mortes pela Covid-19 se as seguintes medidas forem adotadas:

  • Programa de orientação sobre a doença, testagem massiva com RT-PCR, rastreamento de contatos e isolamento de casos confirmados e suspeitos, apoiado pelos agentes de saúde da família e recursos da tecnologia da informação;
  • Análise geoespacializada, socioeconômica e étnico racial da dinâmica do contágio pela doença, usando o CEP das vítimas;
  • Campanhas na mídia, nas redes sociais e nos espaços públicos;
  • Aceleração da vacinação contra a Covid-19;
  • Suspensão de todas as reintegrações de posse, remoções e despejos;
  • Fim das aglomerações no transporte público e reintrodução das janelas nos ônibus;
  • Restrição mais efetiva da circulação, incluindo o lockdown, que implica ajuda financeira às micro e pequenas empresas e renda emergencial de ao menos R$ 600 reais ao mês e apoio alimentar aos mais vulneráveis ao Sars-Cov-2.

Tais propostas devem considerar as desigualdades entre os grupos sociais e os territórios da cidade, priorizando os locais e as pessoas mais vulneráveis à Covid-19, como a população negra, moradores de favelas, cortiços e habitações precárias, população em situação de rua e trabalhadores dos serviços essenciais, além dos portadores de comorbidades. Para a implementação das medidas acima recomendadas, consideramos que três propostas deveriam ser implementadas imediatamente pela gestão do prefeito Bruno Covas:

1. Estabelecimento de uma mesa permanente com reuniões regulares entre a prefeitura e a sociedade civil para negociar propostas e prestar contas sobre ações contra a pandemia.

2. Lockdown urgente de pelo menos três semanas, como recomenda o movimento Abril pela Vida, coordenado com o governo do estado e as prefeituras da Grande São Paulo.

3. Criação de uma Força-Tarefa para Ações Integradas de Prevenção da Covid-19, assessorada por um comitê científico, priorizando no curtíssimo prazo áreas e grupos mais vulneráveis ao Sars-Cov-2, incluindo crianças e adolescentes, grávidas e puérperas, pessoas em situação de rua, imigrantes e moradores de habitações precárias. A Força-Tarefa também deveria considerar nas suas atividades as dimensões étnico-racial, de gênero, de orientação sexual e de identidade de gênero.

A cidade de São Paulo é o coração econômico do Brasil. É também o maior centro de produção científica e principal polo cultural da América do Sul. É inaceitável que esta pujante metrópole sucumba em decorrência de uma gestão ineficiente da pandemia. É intolerável que as taxas de mortalidade por COVID-19 sejam até quatro vezes mais elevadas nos distritos mais pobres da cidade do que nos mais ricos.

A Coalizão pela Vida pretende transformar a guerra contra o novo coronavírus em um grande mutirão, que leve saúde e esperança às populações mais vulneráveis do município mais rico do país.

São Paulo, 27 de abril de 2021

Subscrevem esta carta a Coalizão pela Vida e as seguintes entidades que a integram:

Ação Educativa

Associação das Médicas e Médicos pela Democracia (ABMMD-SP)

Brigada pela Vida

Central de Movimentos Populares (CMP)

Coalizão Negra por Direitos

Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN)

Consulados das Famílias

BrCidades – rede de debate e construção de uma agenda para as cidades brasileiras

Coletivo Evangélicas pela Igualdade de Gênero

Diretório Acadêmico da FAU/Mackenzie (DAFAM)

EMAU Mosaico (FAU/Mackenzie)

Família Seth

Família Stronger

Federação das Associações Comunitárias do Estado de São Paulo (FACESP)

Fórum Municipal de Economia Solidária, representado por Diego Veiga

Grupo de Prevenção Integrada da COVID-19 (GPIC)

LabCidade – Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (FAU/USP)

Observatório de Lutas Urbanas do Instituto das Cidades da Unifesp (OLU-IC-Unifesp)

Marcha das Mulheres Negras de São Paulo

Movimento Negro Unificado (MNU)

Rede Democracia e Participação

Rede Periférica LGBTI

Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS)

União dos Movimentos de Moradia (UMM)

Visão Mundial