União dos Movimentos de Moradia
– São Paulo

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Um feliz Natal de rua

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Tião Nicomedes, escritor e morador de rua, narra, aos leitores de ÉPOCA, a história de seu Natal pelas ruas paulistanas

Eu acordo numa pensão em São Paulo, no bairro do Brás. Pensão é igual albergue, tem regras, tem horas, como o acolhido em albergue, o morador de pensão tem de se adaptar às normas da casa. A diferença é que pensão tem dono, pra ter direito a vaga – banho, cama beliche -, tem de pagar o pernoite.

Igual albergue, pensão abriga uma legião de sem teto, solteirões, separados, desquitados, divorciados, viúvos, casais de baixa renda (alugam-se quartos), ambulantes, desempregados, tem gente até com emprego certo, renda fixa, não suficiente pra conseguir alugar quitinete, apartamento, casas, que exigem fiador e ou depósitos.

A grande semelhança tá na condição. Morar em vagas de beliches, dividindo o quarto com gente que nem se conhece bem pode significar muita coisa. Busca de família, núcleo social de convivência, evitar a solidão e o isolamento total.

A decisão de morar na rua, pode ser pessoal ou involuntária. Pode ser uma fuga, sensação de… liberdade?

Liberdade que termina quando o caminhão pipa chega, quando o preconceito, a discriminação. Morar na rua pode ser uma insatisfação com as coisas desse mundo, bater cartão, ter de faturar, pagar contas, comprar, gastar, ganhar, correr. Nem todo mundo agüenta o tédio de viver todo dia a mesma coisa, de ter de se vestir de um padrão de vida, da obrigatoriedade de se dar bem.

Mudar de vida? Ou enriquecer? O que a sociedade realmente exige das pessoas? Por tantos anos de injustiça, por tanta desigualdade, muitas pessoas desistem da disputa por lugar ao sol. Mas a rua também tem fases.Tem dia e noite, tem as festividades.

O fim de ano é o período mais marcante, o Natal é o mais difícil de enfrentar porque traz recordações que não se quer ou das quais não se pode fugir.

De repente me dou conta do banho gelado, que o controlador de energia já fez o corte automático dado ao tempo que estou me ensaboando no meu banho de gato.

Me enxuguei do jeito que deu, tinha pressa em ganhar as ruas.

8h da manhã. Parei diante ao mercado municipal, onde passei meus primeiros dias quando estive morador de rua. Virei pra observar as pichações no edifício mais polêmico da cidade, o Treme-Treme. Toda vida ouvia falar desse lugar, isso muito antes de sonhar vir morar na capital.

São dois prédios, na verdade, o São Vito e o Mercúrio. O São Vito tá totalmente vazio,o Mercúrio tá na Justiça, despeja não despeja. Os poucos inquilinos que restam reclamam não ter pra onde ir. Por pouco não estão passando este Natal debaixo da ponte. A coisa lá tá feia, isso deve ser a justificativa pra os tímidos enfeites de Natal, a bem dizer, olhando do lado de cá da avenida do Estado, só dá pra ver um Papai Noel pendurado do lado de fora no 12º. andar, por uma cordinha bamba. Nem saco de presentes ele tem, tá enforcado.

9h da manhã. Parado perto do correio, no Anhangabaú, vejo um amigo me chamando. É o João da Viola, me convidando pra um rápido café no boteco.Vamos ao mais perto do metrô São Bento, que o seu João tem pressa, tá apavorado atrás de corda de violão, precisa repor duas que arrebentaram. Logo mais, às 13 horas, vai se apresentar no Natal Solidário, a festa das pessoas em situação de rua na Praça da Sé. Este ano tem até almoço. São 1200 pratos cedidos pelo sindicato dos comerciários da cidade.

João da Viola conta moedinhas pra pagar o café, ele faz questão. “É meu presente de Natal a você, companheiro – diz e explica – É simples mas é de coração”.

João da Viola é um cantor de música caipira, sertaneja de raiz, toca viola como ninguém. Vive num viaduto lá na Mooca, sua carroça de catar papelão é sua firma, sua casa, na maioria das noites, ele dorme embaixo dela.

Recentemente conseguiu gravar um CD, Graças à ajuda e à participação de alunas de terapia Ocupacional da USP, do projeto Metuia.

Seu João segue precisa conseguir as cordas.

10h. Os representantes dos moradores de rua, Anderson Lopes e Robson Mendonça, coordenadores do evento este ano chamam ao palco as autoridades que vão fazer a abertura oficial. O Padre Júlio Lancelotti, o recém-eleito vereador Floriano (ex-secretário da Assistência Social), a vereadora Soninha (foi candidata a prefeita de São Paulo) e o senador Eduardo Suplicy.

O padre Júlio abre as comemorações convidando todos os presentes a rezar o Pai Nosso. Rapidamente, Lancelotti e as demais autoridades, mesmo sem fazer uso da palavra, deixam o palco, que chegou o Coral da Guarda Civil Metropolitana.

A GCM, que nos anos anteriores estragou a festa, com borrachadas e sprays de pimenta, voltou este ano, desta vez pra presentear as pessoas em situação de rua com canções natalinas e mensagens de paz.

Bastante aplaudido, o coral faz a saideira cantando junto com o Suplicy de vocalista. Fizeram uma música em inglês. A galera gostou.

Mas quem brilhou nos palcos realmente foram os talentos da rua. Teve o cover do Raul Seixas, O Raul da Rua (Bob Neto). Teve o Ed Boy com seu pandeiro fazendo repentes e palhaçadas, que nisso o Ed Boy se especializou. Tá perdendo como músico, mas se aprimorando como humorista, quase um comediante profissional. Costuma aprontar nos programas de calouros das TVs. Teve o Ena-Ha, cantor de reggae, dois anos com projeto pelas ruas de Sampa, já tem até DVDs ao vivo. Ena-Ha ganha a vida vendendo seus CDs e as camisetas que ele mesmo faz com estampas estilo Jamaica.

Teve o compositor Francisco Machado, que canta desde os 8 anos de idade. Ele, que é de 1949, sonha com o dia de lançar um bom CD e que grandes intérpretes do samba e da MPB parem pra que possa mostrar suas letras. “Se os cara ouvir a melodia, os cara grava”. Machado diz ter mais de 100 composições na gaveta.

Na parte da tarde, outra grande surpresa. O coral da Polícia Militar se apresentou também. Cantaram músicas desde o Milton Nascimento ao tradicional Noite Feliz.

Como a GCM, os PMs foram ovacionados e, emocionados, agradecem a receptividade, desejando sorte, oportunidades.”Um ano de paz pra todo mundo, boas festas”.

A festa deste ano encerrou às 17 do dia 24, véspera de Natal, véspera das chuvas se formando nos céus sendo tomados por gigantescas nuvens escuras. “Tempestade vem aí”, pensei.

No Marco Zero de São Paulo, Claudinei da Silva, 26 anos, escreve um cartão de Natal para deixar na árvore de copos recicláveis

Parei no Marco Zero, notei um rapaz com uma mala na cabeça, um baita fone de ouvido, ocupando as mãos entre segurar a mala e ajustar os fones.

Puxei assunto. Ele tirou os fones das orelhas, pôs no pescoço. Colocou a mala no chão. Me cumprimentou, nos apresentamos. Bom, ele já me conhecia, isso facilitou tudo.

Me chamou pra ver o cartão que ele colocou na árvore de Natal feita de copos descartáveis picotados.

O cartão não estava mais lá. Claudinei ficou contente que alguém escolheu o seu. Procurou outro que tava em branco. Colocou sobre a mala, me pediu uma caneta. Escreveu outra mensagem. Pendurou na árvore de novo.

– “Claudinei de que?

– Claudinei da Silva.

Claudinei tem 26 anos de idade. De novinho foi dado por sua mãe para uma lavadeira criar, a Maria das Dores. Pouco tempo depois a Maria teve um infarto, ela estava lavando as roupas e morreu. Claudinei foi dado a outra família que deu pra outra e outra… Claudinei teve 10 mães adotivas. “Da última, a minha mãe verdadeira me tomou de volta”.

Claudinei teve uma vida sofrida. Na escola apanhava da molecada, no fim das contas, ele que ia parar na diretoria e levava o castigo.

Tomou raiva dessa coisa chamada escola, parou de estudar depois da sexta série.
Em casa também as coisas iam mal. Ao completar 20 anos, deixou a terra natal, Pirapozinho. “É região de Presidente Prudente”.

Pegou o trecho, parou em uma cidade, poucos dias, aí viajou pra Sampa.

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Claudinei coloca o novo cartão na árvore e lembra como veio parar na capital, longe da família
“Eu sonhava andar nesses ônibus articulados que eu via passar na novela. Na televisão tudo é muito bonito. Mas de perto não têm graça nenhuma as coisas aqui”.

Se você fosse pedir um presente essa noite, o que você ia querer ganhar?

– Se o Papai Noel aparecesse pra mim, eu ia pedir uma casa.

Uma casa?

– É. Só por essa noite. Eu queria ter uma ceia de Natal e tomar um bom banho de chuveiro quentinho e dormir numa cama de colchão bem macio… Cama com travesseiro, pra eu descansar a cabeça.

Anda muito cansado?

– Eu moro aqui nessa praça desde que saí de casa. Seis anos já. No começo, eu tinha medo de morrer. Eu cheguei pela Barra Funda. Aprendi o caminho da Sé, nunca mais saí desse lugar.

Às vezes eu olho as pessoas falando sozinhas. A rua deixa a gente louco, sabia? Deixa doido. Eu tenho medo de ficar assim. Sabe,eu rezo a Deus pra não me deixar ficar assim.

Enquanto conversávamos, parou um comboio de 8 carros, tinha até taxis na comitiva. Distribuindo marmitex com macarronada, frango ao molho e purê de batatas. Claudinei pediu licença.

– Vou guardar pra comer na ceia da meia-noite. Tchau Tião. Bom Natal, feliz ano novo.

Eu vaguei pelas ruas da cidade. Às 23h eu sentei nas escadas no Vale do Anhangabaú, fiquei contemplando as àrvores enfeitadas de luzinhas azuis. Um tom mais escuro lembra o céu, o mais claro lembra o mar. As luzinhas do Viaduto do Chá são amarelas, as do Viaduto Santa Ifigênia também.

23h50 entrei na Igreja São Bento, lá onde esteve o Papa Bento XVI. Ouvi um canto em latim, a porta estava aberta, os seguranças não implicaram, então eu entrei.

Então é Natal…

Deu meia-noite os sinos dobraram. Dei um tempinho, depois da primeira leitura eu fui caminhar sob a chuva e chorar de alegria agradecendo aos céus por viver mais um dia de vida, uma noite natalina em paz. Eu tava feliz!

Terminei entrando na Catedral da Sé, onde também celebravam a missa.

Lembrei dos meus pais. Na noite de Natal íamos eu e meu irmão Zé à catedral de Assis, assistir à missa do galo. Quando voltávamos pra casa tinha ceia nos esperando, que minha mãe preparava com tanto carinho.

A gente ia dormir e, quando acordávamos, tinha presente embrulhado debaixo de nossa cama. Pegávamos os brinquedos e corríamos pro quintal, depois do almoço, íamos brincar na rua, com a molecada do bairro.

Deu saudade da família, que se separou toda depois que nossos pais morreram. Nunca mais juntou todo mundo no dia de Natal. Nunca mais teve ceia.

Esperei a benção final. Fui caminhar mais um pouco. Desejar feliz natal pra os moradores de rua que encontrasse acordado. Precisava de um abraço amigo. Queria ver as pessoas, não aquelas buzinando de carro. Mas aquelas às quais me assemelhei nos últimos anos.

Depois fui embora pra pensão. Minha bermuda tava ensopada, minha camisa então, nem se fala… E, pra variar, o meu chinelo arrebentou com a pressão de caminhar nas poças d’água.

4h da manhã, toquei a campainha. Antes de a porta abrir, fiquei olhando os raios nos céus, piscando feito as luzinhas dos prédios.

Um último grito no meio do asfalto vazio: FELIZ NATAL PRA TODO MUNDO!